
Ao longo dos anos, a relação do público com spoilers mudou radicalmente. Se antes revistas de TV revelavam abertamente os desfechos das novelas — e eram compradas justamente por isso — hoje a cultura do “não me conte nada” domina o consumo de entretenimento. Ainda assim, alguns estúdios parecem presos a uma outra era. Em vez de criar mistério, acabam entregando no trailer momentos que deveriam ser as grandes viradas dentro da sala de cinema, gerando casos notórios de trailers que entregaram spoilers absurdos.
Com base na lista elaborada pelo canal PeeWee, reunimos cinco exemplos emblemáticos — e muitas vezes inacreditáveis — de trailers que revelaram demais e comprometeram a experiência.
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O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro (2014)

Mesmo quem nunca leu uma HQ do O Espetacular Homem-Aranha 2 pôde antecipar o momento mais dramático do filme — graças ao próprio trailer. Nele, a presença simultânea do Duende Verde, da roupa usada por Gwen (Emma Stone) e da cena em que ela despenca em queda livre são pistas mais do que suficientes para decifrar o destino da personagem.
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O material promocional não apenas sugere sua morte, como exibe parte da coreografia da cena, reduzindo a tensão que deveria acompanhar o público até o instante decisivo. O impacto emocional — que nos quadrinhos é um marco do universo do Homem-Aranha — se perde quando a antecipação substitui a surpresa.
Curiosamente, anos depois, a Marvel aprendeu a lição e passou a esconder informações em trailers, como fez em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, cuja aparição dos três “Miranhas” foi rigorosamente omitida.

A Casa dos Sonhos (2011)

Entre todos os casos da lista, este talvez seja o mais chocante. O trailer de A Casa dos Sonhos simplesmente revela a grande reviravolta do longa: o protagonista, vivido por Daniel Craig, matou a própria família e convive com projeções mentais delas.
O filme pertence ao tipo de narrativa em que público e personagem descobrem juntos o que está acontecendo — ou deveriam descobrir. Com a revelação entregue sem cerimônia no trailer, a experiência fica comprometida. O espectador entra no cinema sabendo exatamente para onde a história está indo.
A recepção negativa do filme reforçou ainda mais a sensação de que a campanha de divulgação buscava compensar um projeto frágil, apostando tudo no choque imediato.

Quarentena (2008)

O remake americano de [REC] já enfrentava comparações desfavoráveis ao original. Mas o trailer de Quarentena tornou tudo ainda mais difícil ao incluir, sem qualquer disfarce, a cena final do filme — o momento em que a protagonista é arrastada para a morte no escuro.
Trata-se do encerramento da narrativa, o último impacto da jornada da repórter presa em um prédio infestado por infectados. Mostrar esse trecho em prévia promocional reduz o efeito de choque e transforma o suspense em mera contagem regressiva até algo que o público já viu antes mesmo de comprar o ingresso.
O pôster do filme, que também utiliza a imagem da cena, reforça o problema, mas é o trailer que causa o maior estrago.

Velozes & Furiosos 9

A franquia da Velozes & Furiosos 9 adora resgatar personagens, mas o retorno de Han — interpretado por Sung Kang — tinha potencial para ser um dos grandes momentos emocionais da saga. Afinal, o personagem havia morrido em Velozes & Furiosos: Desafio em Tóquio e sua história passou por diversas revisões ao longo dos filmes.
Mas toda a surpresa acabou no instante em que o trailer mostrou Han de volta, sorrindo e comendo salgadinhos como se nada tivesse acontecido. A direção até prepara uma cena especial de apresentação dentro do longa, planejada para gerar impacto. Porém, quando o público já viu tudo na prévia, não há revelação que sobreviva.

O Quarto de Jack (2015)

O premiado O Quarto de Jack acompanha uma mãe e seu filho mantidos em cativeiro, em uma história marcada por drama e resiliência. A força do filme reside justamente na forma como os personagens lidam com o trauma — dentro e fora do quarto.
Por isso, surpreende que o trailer revele que os dois escapam ainda na metade da narrativa, mostrando sua reintegração ao mundo exterior e a adaptação da criança à vida real. Embora esses elementos façam parte do longa, divulgá-los remove qualquer dúvida sobre o destino dos protagonistas, diminuindo o impacto emocional e a tensão do primeiro ato.
É um caso em que a divulgação parece querer provar que o filme vai além da premissa inicial, mas o faz à custa da própria surpresa.

Trailers são essenciais para atrair público, mas há uma linha tênue entre criar expectativa e comprometer a experiência do espectador. Em todos os exemplos acima, a busca por impacto imediato acabou revelando demais — e tirando dos filmes sua capacidade de surpreender.
Em uma era em que espectadores evitam até sinopses, fica o alerta: nem sempre mostrar mais significa conquistar mais.