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10 Filmes que utilizaram Inteligência Artificial

Como Hollywood já incorporou a IA ao cinema

A inteligência artificial deixou de ser apenas um tema recorrente da ficção científica para se consolidar como uma ferramenta cada vez mais presente nos bastidores de Hollywood. Nos últimos anos, diversas produções passaram a empregar a tecnologia para aprimorar vozes, restaurar imagens, rejuvenescer atores, desenvolver efeitos visuais e otimizar processos de pós-produção.

O avanço dessas ferramentas, no entanto, também provocou debates sobre ética, direitos autorais e o futuro das profissões criativas. As discussões ganharam força durante as greves dos roteiristas e atores de Hollywood, em 2023, quando o uso da inteligência artificial tornou-se um dos principais pontos das negociações entre os estúdios e os sindicatos.




Apesar das controvérsias, a tecnologia vem sendo utilizada, na maioria dos casos, como um recurso complementar ao trabalho de artistas e técnicos, auxiliando na resolução de desafios complexos sem substituir o processo criativo humano. A seguir, confira 10 filmes que utilizaram Inteligência Artificial em diferentes etapas de suas produções e ajudaram a transformar a forma como o cinema é feito atualmente.

O Brutalista (2024)

Adrien Brody em cena de O Brutalista, um dos filmes que utilizaram inteligência artificial para aprimorar a pronúncia dos atores.
Adrien Brody em cena de O Brutalista, produção que utilizou inteligência artificial para aprimorar a pronúncia em húngaro. Crédito: A24.

Durante a temporada do Oscar 2025, O Brutalista esteve no centro de um dos debates mais relevantes sobre o uso da inteligência artificial na indústria cinematográfica.

A produção utilizou o software Respeecher para aprimorar a pronúncia em húngaro dos atores Adrien Brody e Felicity Jones. De acordo com o editor Dávid Jancsó, a tecnologia também foi empregada na criação de alguns desenhos arquitetônicos exibidos no epílogo do longa.

A revelação gerou repercussão entre profissionais do setor e levantou discussões sobre os limites da inteligência artificial no cinema. Em resposta às críticas, os produtores esclareceram que a tecnologia não alterou as atuações dos atores, sendo utilizada apenas para corrigir aspectos específicos da pronúncia e preservar a autenticidade do idioma nas cenas.

Emilia Pérez (2024)

Zoe Saldaña em cena de Emilia Pérez, filme que utilizou inteligência artificial para aprimorar performances vocais.
Zoe Saldaña interpreta Rita Mora Castro em Emilia Pérez, produção que utilizou inteligência artificial na pós-produção para aprimorar performances vocais. Crédito: Netflix.

Indicado ao Oscar 2025, Emilia Pérez também entrou para a lista de produções que utilizaram inteligência artificial durante a pós-produção. Dirigido por Jacques Audiard, o musical empregou a tecnologia para aprimorar algumas de suas performances vocais.

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A equipe utilizou o software Respeecher para combinar a voz da atriz Karla Sofía Gascón com a da cantora francesa Camille, ampliando sua extensão vocal nas sequências musicais sem comprometer a interpretação da protagonista.

A utilização da ferramenta veio a público durante a temporada de premiações e gerou debates sobre a transparência no uso da inteligência artificial em produções cinematográficas. A discussão ganhou força porque o recurso não havia sido divulgado durante a campanha do longa para o Oscar.

Indiana Jones e a Relíquia do Destino (2023)

Harrison Ford rejuvenescido digitalmente em Indiana Jones e a Relíquia do Destino com auxílio de inteligência artificial.
Harrison Ford em Indiana Jones e a Relíquia do Destino, que utilizou inteligência artificial para rejuvenescimento digital. Crédito: Lucasfilm.

Indiana Jones e a Relíquia do Destino apresentou um dos usos mais sofisticados da inteligência artificial em uma superprodução de Hollywood. A tecnologia foi empregada para rejuvenescer digitalmente Harrison Ford nas sequências ambientadas durante a Segunda Guerra Mundial.

Para alcançar o resultado, a equipe de efeitos visuais utilizou algoritmos de aprendizado de máquina treinados com milhares de imagens do ator registradas ao longo de sua carreira. O material serviu como base para recriar a aparência de Ford décadas mais jovem com alto nível de realismo.

O processo combinou inteligência artificial, captura facial, CGI e técnicas tradicionais de efeitos visuais, permitindo reconstruir as expressões e características do personagem sem a necessidade de substituir o ator por um dublê digital.

Aqui (2024)

Tom Hanks e Robin Wright em Aqui, filme que utilizou inteligência artificial para rejuvenescimento digital.
Tom Hanks e Robin Wright em Aqui, longa que utilizou IA para envelhecimento e rejuvenescimento digital. Crédito: Sony Pictures.

Aqui, novo filme dirigido por Robert Zemeckis, tornou-se um dos primeiros longas de Hollywood a utilizar amplamente inteligência artificial para rejuvenescer e envelhecer atores em tempo real durante as filmagens.

A trama acompanha diferentes gerações ao longo de várias décadas, exigindo que Tom Hanks, Robin Wright, Paul Bettany e Kelly Reilly interpretassem seus personagens em diferentes fases da vida sem recorrer à maquiagem pesada ou à substituição do elenco.

Para isso, a produção empregou uma tecnologia desenvolvida pela Metaphysic AI, capaz de aplicar transformações faciais digitais diretamente no set de filmagem. O recurso agilizou o processo de produção e permitiu que os atores interpretassem todas as versões de seus personagens com maior naturalidade.

Alien: Romulus (2024)

Rook em Alien: Romulus recriado com inteligência artificial e efeitos visuais.
Rook em Alien: Romulus, personagem recriado com auxílio de inteligência artificial e efeitos visuais. Crédito: 20th Century Studios.

Alien: Romulus utilizou inteligência artificial para recriar digitalmente a aparência e a voz do ator Ian Holm, falecido em 2020. A tecnologia permitiu trazer de volta à franquia o androide Rook, personagem inspirado no androide Ash, interpretado pelo ator em Alien – O Oitavo Passageiro (1979).

A reconstrução foi realizada com autorização da família de Holm e combinou inteligência artificial, captura de performance, efeitos visuais e processamento de voz para reproduzir suas características físicas e vocais de forma realista.

O uso da tecnologia gerou debates entre especialistas e profissionais da indústria sobre questões éticas envolvendo a recriação digital de artistas falecidos, especialmente em relação aos direitos de imagem e aos limites da inteligência artificial no cinema.

Top Gun: Maverick (2022)

Tom Cruise em Top Gun: Maverick, filme que utilizou inteligência artificial no tratamento de imagens aéreas.
Tom Cruise em Top Gun: Maverick, cuja pós-produção empregou inteligência artificial para otimizar imagens aéreas. Crédito: Paramount Pictures.

Embora tenha se destacado pelo amplo uso de efeitos práticos e cenas aéreas reais, Top Gun: Maverick também recorreu à inteligência artificial em etapas da pós-produção para otimizar o tratamento das imagens captadas durante as filmagens.

Ferramentas baseadas em IA foram utilizadas para estabilização de imagem, redução de ruídos e aprimoramento da qualidade do material registrado pelas diversas câmeras instaladas no interior e no exterior das aeronaves militares.

O emprego desses algoritmos ajudou a agilizar o fluxo de pós-produção e contribuiu para preservar a nitidez e o realismo das sequências aéreas, consideradas um dos principais destaques técnicos do longa.

O Irlandês (2019)

Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci em O Irlandês, filme que utilizou aprendizado de máquina para rejuvenescimento digital.
Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci em O Irlandês. Crédito: Netflix.

O Irlandês, dirigido por Martin Scorsese, marcou um importante avanço nas técnicas de rejuvenescimento digital ao combinar captura inovadora de imagens, efeitos visuais e recursos baseados em aprendizado de máquina. O longa permitiu que Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci interpretassem seus personagens em diferentes fases da vida sem a necessidade de maquiagem pesada ou substituição do elenco.

Para preservar a naturalidade das atuações, a Industrial Light & Magic (ILM) desenvolveu o sistema proprietário FLUX, que dispensou o uso de marcadores faciais. Durante as filmagens, um equipamento apelidado de “Monstro de Três Cabeças” combinava a câmera principal com duas câmeras infravermelhas, responsáveis por registrar informações detalhadas sobre a geometria e a textura do rosto dos atores.

Na pós-produção, técnicas de machine learning foram utilizadas para auxiliar os artistas da ILM na reconstrução digital dos personagens. O sistema cruzava os dados capturados no set com um amplo acervo de imagens dos atores em filmes produzidos décadas antes, contribuindo para recriar versões rejuvenescidas mais fiéis às diferentes épocas retratadas na narrativa.

Entrevista com o Demônio (2023)

Vinheta de Entrevista com o Demônio criada com inteligência artificial generativa.
Vinheta criada com inteligência artificial em Entrevista com o Demônio. Crédito: IFC Films / Shudder.

Entrevista com o Demônio tornou-se um dos primeiros filmes independentes de destaque a admitir publicamente o uso de inteligência artificial generativa em sua produção. A tecnologia foi empregada na criação de três imagens estáticas exibidas como vinhetas durante as pausas do fictício programa de televisão retratado no longa.

Embora a participação da IA seja limitada e não envolva atores ou efeitos visuais complexos, a revelação gerou forte repercussão entre profissionais da indústria e parte do público. O caso reacendeu discussões sobre os impactos da inteligência artificial na produção audiovisual e sobre a valorização do trabalho de artistas e ilustradores.

Os diretores Colin Cairnes e Cameron Cairnes afirmaram que as imagens geradas por IA foram utilizadas apenas como elementos gráficos pontuais e que a maior parte dos efeitos visuais do filme foi produzida por artistas humanos. Ainda assim, Entrevista com o Demônio tornou-se um dos principais exemplos do debate sobre o uso de IA generativa no cinema contemporâneo.

Furiosa: Uma Saga Mad Max (2024)

Anya Taylor-Joy em Furiosa, filme que utilizou inteligência artificial para transição facial entre atrizes.
Anya Taylor-Joy em Furiosa: Uma Saga Mad Max, que utilizou IA para integrar diferentes fases da protagonista. Crédito: Warner Bros. Pictures.

Furiosa: Uma Saga Mad Max utilizou inteligência artificial durante a pós-produção para aprimorar a transição entre as diferentes fases da protagonista. A equipe de efeitos visuais recorreu à tecnologia da Metaphysic AI para combinar digitalmente características faciais de Anya Taylor-Joy com as de Alyla Browne, responsável por interpretar a versão mais jovem de Furiosa.

O objetivo era criar uma evolução visual mais natural da personagem ao longo da narrativa, preservando a continuidade entre as duas interpretações sem comprometer as atuações das atrizes.

Além da protagonista, a tecnologia também foi empregada na recriação digital da aparência do ator Richard Carter, demonstrando como ferramentas baseadas em inteligência artificial vêm sendo incorporadas ao fluxo de trabalho dos estúdios para complementar técnicas tradicionais de efeitos visuais.

Elvis (2022)

Austin Butler interpreta Elvis Presley em filme que utilizou inteligência artificial na pós-produção.
Austin Butler interpreta Elvis Presley em produção que utilizou inteligência artificial em efeitos visuais. Crédito: Warner Bros. Pictures.

Elvis, dirigido por Baz Luhrmann, foi uma das primeiras grandes produções de Hollywood a empregar tecnologias desenvolvidas pela Metaphysic AI em seu fluxo de efeitos visuais. Os recursos foram utilizados para integrar de forma mais natural o ator Austin Butler a imagens de arquivo de Elvis Presley.

A tecnologia também auxiliou em processos de substituição facial e composição digital durante a pós-produção, permitindo criar transições mais convincentes entre imagens históricas e cenas gravadas especialmente para o longa.

Embora os efeitos visuais tradicionais continuassem sendo a base da produção, Elvis tornou-se um dos primeiros filmes de grande orçamento a demonstrar como ferramentas baseadas em inteligência artificial poderiam complementar o trabalho dos artistas de VFX. Posteriormente, a própria Metaphysic AI citou o longa como um de seus primeiros projetos de destaque na indústria cinematográfica.

Tilly Norwood: a primeira “atriz” 100% gerada por IA

Tilly Norwood, a primeira "atriz" criada por inteligência artificial
Tilly Norwood, personagem criada inteiramente por inteligência artificial, tornou-se o centro de um debate sobre o futuro da atuação em Hollywood. Crédito: Particle6.

Em 2025, o estúdio britânico Particle6 apresentou Tilly Norwood, uma personagem criada inteiramente por inteligência artificial e promovida como uma possível contratada de agências de talentos de Hollywood. A iniciativa gerou repercussão imediata na indústria, com atrizes como Emily Blunt, Whoopi Goldberg, Natasha Lyonne e Melissa Barrera criticando publicamente a ideia de agências passarem a representar avatares gerados por IA.

A proposta também foi alvo de críticas do sindicato SAG-AFTRA. Em nota oficial, a entidade afirmou que Tilly Norwood não pode ser considerada uma atriz, mas sim um personagem criado por um sistema de inteligência artificial treinado com o trabalho de inúmeros profissionais sem autorização ou compensação. O sindicato argumentou ainda que uma criação sintética não possui experiência de vida nem capacidade emocional para substituir uma interpretação humana.

Em julho de 2026, Tilly Norwood fez sua estreia no curta-metragem Misaligned, primeiro capítulo do chamado “Tillyverse”, um universo narrativo desenvolvido para reunir personagens inteiramente criados por inteligência artificial. O lançamento ampliou o debate sobre os limites éticos da IA na indústria do entretenimento e reforçou as discussões sobre o futuro da atuação em Hollywood.

O Oscar entra na discussão

Novas regras a partir de 2027

Arte editorial sobre as novas regras do Oscar 2027 para o uso de inteligência artificial em filmes, destacando a preservação da autoria humana.O avanço da inteligência artificial na indústria cinematográfica também levou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas a revisar suas regras para o Oscar. Após a repercussão de casos envolvendo produções como O Brutalista, Emilia Pérez e o debate em torno da personagem virtual Tilly Norwood, a entidade anunciou, em maio de 2026, mudanças em seu regulamento com foco na preservação da autoria humana.

As novas diretrizes, válidas a partir da cerimônia do Oscar 2027, determinam que apenas interpretações realizadas por atores humanos, com seu consentimento, poderão concorrer às categorias de atuação. O mesmo princípio passa a valer para os roteiros, que deverão ter autoria comprovadamente humana para serem elegíveis à premiação.

Ao mesmo tempo, a Academia deixou claro que o uso da inteligência artificial como ferramenta de apoio continua permitido em áreas como montagem, efeitos visuais, edição de som, direção de arte e outras etapas da produção. Segundo a entidade, a utilização da tecnologia, por si só, não favorece nem prejudica as chances de indicação de um filme, cabendo aos votantes avaliar o grau de participação humana no processo criativo de cada obra.

O uso da IA divide Hollywood

A crescente adoção da inteligência artificial continua dividindo opiniões em Hollywood. Enquanto estúdios e empresas de tecnologia destacam os ganhos em eficiência, parte da comunidade artística alerta para os impactos da ferramenta sobre o mercado de trabalho e os direitos dos profissionais do setor.

Os defensores da tecnologia afirmam que a IA pode reduzir custos de produção, acelerar etapas de pós-produção e solucionar desafios técnicos que, até poucos anos atrás, exigiam meses de trabalho das equipes de efeitos visuais.

Por outro lado, críticos apontam riscos relacionados à substituição de profissionais, ao uso não autorizado da imagem e da voz de atores, à proteção dos direitos autorais e à falta de transparência sobre quando a inteligência artificial é empregada em filmes e séries.

O tema ganhou ainda mais relevância durante as greves dos roteiristas (WGA) e dos atores (SAG-AFTRA) em 2023. Após meses de negociações, os sindicatos conquistaram cláusulas específicas para regulamentar o uso da inteligência artificial em produções de Hollywood, estabelecendo limites para sua utilização e reforçando a necessidade de consentimento e remuneração adequada dos profissionais envolvidos.

Apesar dos avanços da tecnologia, o consenso entre grande parte dos cineastas é que a inteligência artificial dificilmente substituirá a criatividade humana em áreas como direção, roteiro, atuação e fotografia. A tendência é que a IA atue como uma ferramenta de apoio, ampliando as possibilidades criativas e otimizando processos técnicos, enquanto artistas e profissionais do audiovisual permanecem no centro das decisões criativas e da produção cinematográfica.

Felipe Bastos

Felipe Bastos da Silva é jornalista e crítico de cinema brasileiro, fundador e editor do site Cinema & Afins. Atua na cobertura de cinema, séries, games e cultura pop desde 2007, com foco em análises aprofundadas, críticas jornalísticas e reportagens especiais.Ao longo de sua carreira, consolidou o Cinema & Afins como uma das referências brasileiras em jornalismo de entretenimento, oferecendo conteúdo confiável, detalhado e com curadoria profissional. Felipe também produz listas, coberturas de estreias e artigos analíticos sobre a indústria audiovisual.

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