A 98ª edição do Oscar 2026, realizada no domingo, 15 de março de 2026, entrou para a história ao registrar um dos acontecimentos mais raros da premiação. Ao abrir o envelope da categoria de Melhor Curta-Metragem em Live-Action, o ator Kumail Nanjiani surpreendeu a plateia do Dolby Theatre ao anunciar não um, mas dois vencedores: “Os Cantores” e “Duas Pessoas Trocando Saliva”.
Empates na história do Oscar
O episódio representa apenas o sétimo caso entre os empates na história do Oscar em quase um século de história da Academy of Motion Picture Arts and Sciences. Trata-se de um fenômeno estatístico extremamente raro, sobretudo diante do atual sistema de votação, que prevê empate apenas em caso de igualdade absoluta no número de votos, um cenário improvável considerando o universo de votantes.
Para compreender a dimensão do ocorrido, é necessário revisitar os poucos momentos em que a Academia se viu diante da impossidade de definir um único vencedor. A seguir, relembramos todos os empates na história do Oscar e as ocasiões em que duas estatuetas foram entregues na mesma categoria.
1932: o primeiro “empate”
O primeiro, e mais controverso, “empate” da história do Oscar não foi, tecnicamente, um empate. Na ocasião, Fredric March recebeu um voto a mais do que Wallace Beery. Ainda assim, as regras vigentes permitiam que dois candidatos fossem premiados caso a diferença fosse inferior a três votos.
A norma refletia o estágio inicial da Academia do Oscar, que à época realizava apenas sua quinta cerimônia e ainda buscava consolidar seus critérios de avaliação. A intenção era reconhecer desempenhos considerados igualmente relevantes, mesmo sem uma igualdade numérica absoluta.
Na prática, o resultado levou à entrega de duas estatuetas, com ambos os atores sendo reconhecidos oficialmente como vencedores da categoria. O desfecho gerou questionamentos sobre a eficácia do sistema. Diante da controvérsia, a Academia revisou rapidamente o regulamento, passando a adotar um critério mais rigoroso: a partir de então, apenas empates com igualdade exata de votos justificariam a divisão do prêmio.
Oscar de 1950
🏆 Melhor Curta-Metragem Documentário
A Chance to Live
So Much for So Little
O primeiro empate “legítimo” da história do Oscar ocorreu longe das principais atenções da cerimônia. Na categoria de Melhor Documentário de Curta-Metragem, A Chance to Live e So Much for So Little receberam exatamente o mesmo número de votos, configurando o primeiro caso de igualdade absoluta na premiação.
O episódio funcionou como um sinal de que, mesmo em categorias com menor visibilidade e volume de votação, o fenômeno do empate era possível dentro das regras da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Dirigido por Chuck Jones, criador de personagens icônicos como Pernalonga e Papa-Léguas, So Much for So Little abordava temas de saúde pública infantil em parceria com o Departamento de Saúde dos Estados Unidos. À época, o filme também se destacou por se tornar o único curta da Warner Bros. a vencer um Oscar até então.
Apesar da relevância histórica, o empate teve baixa repercussão. Discreto, assim como os próprios filmes, o resultado passou praticamente despercebido pelo grande público, restrito ao interesse de especialistas e da indústria cinematográfica.
O primeiro empate exato no Oscar: 1950
Oscar 1969: o mais famoso empate da história
Cada uma recebeu exatamente 3.030 votos, um número que ganha ainda mais relevância diante do contexto histórico da disputa. De um lado estava Katharine Hepburn, já consagrada como uma das maiores atrizes de Hollywood, com duas estatuetas de Melhor Atriz (1933 e 1967) e conhecida por sua postura reservada, raramente comparecendo às cerimônias. Do outro, surgia Barbra Streisand, em sua estreia no cinema, interpretando Fanny Brice em Funny Girl: A Garota Genial, desempenho que dominou a temporada de premiações.
A apresentação da categoria ficou a cargo de Ingrid Bergman, que, ao abrir o envelope, fez uma breve pausa antes de anunciar dois nomes. A reação foi imediata: a plateia do Oscar 1969 explodiu diante do resultado inesperado.
Fiel ao seu estilo, Hepburn não compareceu à cerimônia e optou por enviar apenas uma mensagem de agradecimento. Streisand, por sua vez, subiu ao palco visivelmente emocionada, vestindo um figurino que rapidamente se tornaria icônico.
O episódio consolidou-se como o empate mais emblemático da história do Oscar. Não apenas pela coincidência numérica, mas pelo peso simbólico das duas vencedoras, representantes de gerações e estilos distintos, ambas reconhecidas como incontestáveis.
Katharine Hepburn e Barbra Streisand empatam na categoria de Melhor Atriz: Oscar de 1969
Oscar 1987: vozes que não se calaram
🏆 Melhor Documentário Longa-Metragem
Artie Shaw: Time Is All You’ve Got
Down and Out in America
Quase duas décadas após o emblemático empate na categoria de atuação, a premiação voltou a registrar dois vencedores na mesma categoria. Desta vez, o empate ocorreu em Melhor Documentário em Longa-Metragem, reunindo obras de naturezas distintas.
De um lado, Artie Shaw: Time Is All You’ve Got resgatava a trajetória de um dos grandes nomes do jazz norte-americano. Do outro, Down and Out in America apresentava um retrato contundente da crise habitacional e do aumento da pobreza nos Estados Unidos durante o governo de Ronald Reagan.
O empate evidenciou um contraste significativo. Enquanto um dos filmes se voltava à memória cultural, o outro assumia um caráter urgente, abordando questões sociais contemporâneas e seus impactos diretos na população.
Mais do que uma coincidência numérica, o resultado refletiu uma divisão de perspectivas dentro da própria Academia, historicamente sensível a documentários de forte cunho social. Incapaz de estabelecer uma hierarquia entre passado e presente, a instituição reconheceu ambas as obras como igualmente relevantes.
Oprah Winfrey apresenta o empate de Melhor Documentário
Oscar 1995
🏆 Melhor Curta-Metragem Live-Action
Franz Kafka’s It’s a Wonderful Life
Trevor
Dois filmes de propostas radicalmente distintas acabaram unidos por um resultado que o corpo votante da Academia não conseguiu desempatar. Franz Kafka’s It’s a Wonderful Life, produção britânica de tom absurdo, foi dirigida por Peter Capaldi, que anos depois se tornaria mundialmente conhecido como o 12º Doutor em Doctor Who.
O curta imagina o escritor Franz Kafka em um bloqueio criativo, tentando encontrar a palavra ideal para descrever um personagem que acorda transformado, em uma abordagem metalinguística e criativa.
Na outra ponta, Trevor apresenta um drama sensível centrado em um adolescente gay, fã de Diana Ross, que enfrenta rejeição no ambiente escolar e familiar. O impacto do filme ultrapassou o circuito cinematográfico, servindo de base para a criação da The Trevor Project, organização dedicada à prevenção do suicídio entre jovens LGBTQ+.
O empate refletiu não apenas a diversidade de estilos, mas também a amplitude temática que o formato de curta-metragem pode alcançar. De um lado, uma abordagem criativa; do outro, um retrato social de forte carga emocional.
O episódio também marcou a primeira vez em que a categoria de Melhor Curta-Metragem Live-Action registrou um empate, feito que voltaria a se repetir décadas depois, na edição de 2026.
Vencedores do Oscar de Curta-Metragem de 1995
Oscar 2013
🏆 Melhor Edição de Som
007 – Operação Skyfall
A Hora Mais Escura
O empate mais recente antes da edição de 2026 ocorreu em uma das categorias técnicas mais relevantes do Oscar. Na disputa por Melhor Edição de Som, o apresentador Mark Wahlberg abriu o envelope e, após uma pausa que elevou a expectativa, anunciou dois vencedores, reforçando a legitimidade do resultado.
Os premiados foram 007 – Operação Skyfalll e A Hora Mais Escura, produções que, embora distintas em abordagem, compartilham um eixo temático comum. De um lado, o universo estilizado de James Bond, em sua 50ª aventura no cinema; do outro, a reconstrução tensa da operação que levou à morte de Osama bin Laden.
A coincidência temática reforçou o simbolismo do empate. Ambos os filmes exploram narrativas ligadas a operações secretas e estratégias de inteligência, elementos nos quais a edição de som desempenha papel fundamental na construção de tensão, atmosfera e imersão.
Mais do que um resultado estatístico, o desfecho evidenciou o alto nível técnico do cinema contemporâneo e a dificuldade da Academy of Motion Picture Arts and Sciences em estabelecer distinções quando duas obras atingem níveis equivalentes de excelência.
007 – Operação Skyfall e A Hora Mais Escura vencem o Oscar de Melhor Edição de Som em 2013
Oscar 2026
🏆 Melhor Curta-Metragem Live-Action
Os Cantores
Duas Pessoas Trocando Saliva
A cena já entrou para o imaginário recente do Oscar: Kumail Nanjiani no palco, envelope na mão e expressão de incredulidade crescente. “Está empatado. Não estou brincando”, anunciou, antes de confirmar o resultado histórico. A plateia, que aguardava um único vencedor, presenciou um momento raro se transformar em memória imediata da premiação.
Os dois filmes vencedores vieram de universos completamente distintos. The Singers, distribuído pela Netflix, levou ao palco seus criadores, que admitiram surpresa com o resultado. Já Duas Pessoas Trocando Saliva, co-dirigido por Alexandre Singh e Natalie Musteata, representa o circuito do cinema independente francófono, com apoio da Canal+ e da The New Yorker.
Ao microfone, Musteata destacou o caráter simbólico do momento ao afirmar que estavam felizes em compartilhar o prêmio. Nanjiani, mantendo o tom leve, encerrou com humor: “É irônico que o Oscar de curta-metragem vá demorar o dobro do tempo”.
Entre o empate de 2013, na categoria de Edição de Som, e este de 2026, passaram-se 13 anos. O episódio reforça que, mesmo com o crescimento do número de votantes da Academia, a possibilidade de um empate absoluto permanece — rara, mas sempre possível.
Oscar 2026: empate em Melhor Curta-Metragem em Live-Action
Como funciona a votação do Oscar
Votos exatos. O sistema de votação do Oscar não prevê desempate na maioria de suas categorias. Quando dois filmes ou performances recebem exatamente o mesmo número de votos na rodada final, ambos são declarados vencedores e recebem uma estatueta completa. Não há segundo turno nem comissão de decisão: o resultado é definitivo.
A exceção de Melhor Filme. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, em conjunto com a PricewaterhouseCoopers (PwC), responsável pela auditoria dos votos, prevê mecanismos de desempate para a principal categoria da noite. Em caso de igualdade, critérios internos são aplicados, evitando que o prêmio máximo seja dividido.
A raridade em números. Com mais de 10 mil membros votantes, a probabilidade de um empate absoluto é extremamente baixa. Isso explica por que, ao longo de quase um século de premiação, o fenômeno ocorreu apenas sete vezes, mesmo considerando centenas de categorias já premiadas.
Quando o Oscar não consegue escolher
O sétimo empate da história do Oscar vai além de uma curiosidade estatística. Ele evidencia um aspecto essencial da premiação: há momentos em que a arte resiste à hierarquização. Em determinadas disputas, a tentativa de definir um único vencedor não falha por ausência de critérios, mas pelo excesso de mérito.
Ao longo de 98 anos de cerimônias, os empates na história do Oscar ocorreram apenas sete vezes. Em cada uma dessas ocasiões, a a instituição por trás do Oscar abriu um envelope e encontrou dois nomes. Sete momentos em que a estatueta dourada precisou ser duplicada — não como exceção problemática, mas como reconhecimento legítimo de desempenhos equivalentes.
Em cada um desses episódios, o que permaneceu não foi a surpresa do resultado, mas a percepção de que havia algo de genuinamente justo naquela decisão incomum. O empate, nesses casos, funciona menos como falha e mais como confirmação da pluralidade artística que define o cinema.
Durante a cerimônia de 2026, Kumail Nanjiani pediu calma à plateia ao anunciar o resultado. No entanto, o momento talvez merecesse outra reação: a celebração de que, ocasionalmente, Hollywood ainda é capaz de se surpreender com a própria incapacidade de escolher.














