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Por Que os Filmes de Tubarão Fazem Sucesso?

Em abril deste ano, um filme de tubarão chamado Ataque Brutal (Thrash) estreou na Netflix e rapidamente se transformou em um fenômeno global. O longa alcançou o primeiro lugar entre os filmes em inglês mais assistidos da plataforma durante duas semanas consecutivas e acumulou mais de 70 milhões de visualizações nesse período.

Ao mesmo tempo, Águas Mortais (Deep Water), novo suspense dirigido por Renny Harlin — cineasta que já havia explorado o terror submarino em 1999 com Do Fundo do Mar —, chegava aos cinemas americanos com Aaron Eckhart e Ben Kingsley no elenco. Diante dessa nova onda de produções, não é exagero dizer que 2026 se tornou, mais uma vez, o ano do tubarão no cinema e no streaming.




Mas o que explica a longevidade dos filmes de tubarão? Por que, mais de 50 anos depois de Tubarão, de Steven Spielberg, esses predadores continuam capazes de despertar medo, atrair espectadores e dominar os catálogos das plataformas? A resposta envolve psicologia, linguagem cinematográfica e uma fórmula comercial que Hollywood aprendeu a explorar como poucas.

O tubarão que Spielberg demorou a mostrar

Tubarão mecânico Bruce nos bastidores de Tubarão, clássico de Steven Spielberg que marcou os filmes de tubarão
O tubarão mecânico Bruce nos bastidores de Tubarão (1975), filme de Steven Spielberg que revolucionou o suspense e influenciou gerações de filmes de tubarão.

Tudo começa, inevitavelmente, em 1975. Tubarão não foi o primeiro filme a colocar um animal selvagem contra seres humanos, mas transformou esse medo em um fenômeno de massa e mudou para sempre a relação do público com o oceano. Mais do que isso, o clássico de Steven Spielberg estabeleceu as bases para praticamente todos os filmes sobre tubarões que surgiriam nas décadas seguintes.

Parte de sua força, porém, nasceu de um problema que ninguém havia planejado: o monstro simplesmente não funcionava como deveria.

O tubarão mecânico construído para as filmagens, apelidado de “Bruce”, apresentava falhas constantes durante a difícil produção em alto-mar. Diante dos problemas técnicos, Spielberg foi obrigado a reduzir a presença da criatura em cena e encontrou outras maneiras de anunciar sua aproximação: a câmera subjetiva sob a água, as boias amarelas que indicavam seus movimentos e, sobretudo, as duas notas ameaçadoras da trilha composta por John Williams.

O que poderia ter sido um desastre de produção acabou se transformando em uma das decisões mais influentes da história do suspense. Em vez de revelar imediatamente a ameaça, Spielberg obrigou o público a imaginá-la. O medo não estava apenas no que aparecia na tela, mas naquilo que poderia estar escondido sob a superfície.

Essa lógica — a ameaça invisível, capaz de surgir a qualquer momento em um ambiente no qual o ser humano está em clara desvantagem — tornou-se a base de praticamente todo filme de ataque de tubarão produzido depois. Poucos, no entanto, conseguiram reproduzir a mesma economia visual e a precisão com que Tubarão transformou a ausência do monstro em sua arma mais poderosa.

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Um medo com raízes biológicas

Tubarão se aproxima de uma nadadora em arte sobre o medo provocado pelos filmes de tubarão
A ameaça invisível sob a água ajuda a explicar por que os filmes de tubarão continuam provocando medo no público décadas após o lançamento do clássico de Steven Spielberg.

Diferentemente de monstros fictícios como zumbis, alienígenas ou criaturas sobrenaturais, o tubarão existe fora da tela. É um predador real, que habita um ambiente no qual os seres humanos não conseguem enxergar com clareza, movimentar-se com rapidez ou controlar completamente o que acontece ao redor.

A água esconde a ameaça até o último instante, limita as possibilidades de fuga e coloca personagens e espectadores diante de uma vulnerabilidade quase primitiva. O medo nasce justamente dessa combinação entre o desconhecido e a perda de controle: sabemos que algo pode estar sob a superfície, mas não podemos vê-lo.

Para o cinema, essa característica representa uma vantagem narrativa poderosa. Um diretor não precisa mostrar constantemente o predador para produzir tensão; basta sugerir sua presença. É por isso que até filmes de tubarão de baixo orçamento conseguem provocar ansiedade genuína com poucos recursos: água, silêncio, um personagem vulnerável e a possibilidade de que alguma coisa esteja se aproximando por baixo.

Uma fórmula barata e lucrativa

Barbatana de tubarão nas águas de Paris em cena de Sob as Águas do Sena (2024)
Uma barbatana rompe a superfície em Sob as Águas do Sena (2024), filme francês de tubarão ambientado em Paris.

Há também uma explicação comercial para a longevidade dos filmes de tubarão. Em comparação com grandes produções de ficção científica ou fantasia, muitos títulos do gênero podem trabalhar com elencos reduzidos, poucos cenários e uma premissa facilmente compreendida pelo público. A ação pode se concentrar em um barco, uma praia ou, como mostrou o filme francês Sob as Águas do Sena, até mesmo nas águas urbanas que cortam uma grande metrópole.

Essa flexibilidade transformou o cinema de tubarão em terreno fértil para o streaming, onde conceitos de alto impacto e compreensão imediata podem conquistar rapidamente a atenção do público. Em muitos casos, são produções relativamente curtas, construídas em torno de uma ameaça clara e capazes de entregar suspense sem exigir universos complexos, longas apresentações ou conhecimento prévio do espectador.

O modelo também favorece a combinação entre produção de gênero e consumo rápido: uma premissa chamativa, personagens colocados imediatamente em perigo e uma duração enxuta. Mesmo quando a recepção da crítica é dividida, o tubarão continua sendo uma imagem facilmente reconhecível e comercializável — uma ameaça que praticamente dispensa explicações.

O caso de Ataque Brutal

Phoebe Dynevor em cena de tensão no filme de tubarão Ataque Brutal (2026)
Phoebe Dynevor enfrenta uma situação de perigo em Ataque Brutal (2026), filme de tubarão dirigido por Tommy Wirkola.

Um dos sucessos recentes entre os filmes de tubarão ilustra bem essa lógica. Dirigido pelo cineasta norueguês Tommy Wirkola, Ataque Brutal (Thrash) combina o tradicional ataque de tubarão com outro elemento recorrente do cinema de sobrevivência: o desastre natural. Na trama, um furacão de categoria 5 provoca uma inundação devastadora em uma cidade costeira e transforma suas ruas em território para os predadores.

A combinação explora dois medos simultâneos: a água que não para de subir e a ameaça que pode estar escondida sob sua superfície. A premissa ajudou Ataque Brutal a se destacar no catálogo da Netflix, onde o filme acumulou mais de 70 milhões de visualizações em suas duas primeiras semanas e chegou ao topo do ranking global da plataforma.

É uma estratégia que se repete ao longo da história do gênero. Os filmes de ataque de tubarão raramente precisam reinventar sua estrutura básica; em vez disso, renovam a fórmula ao combinar o predador com diferentes situações de sobrevivência — de um pouso forçado em alto-mar a desastres naturais, operações criminosas ou confrontos militares.

O tubarão funciona, assim, quase como um coringa narrativo, capaz de ser inserido em diferentes variações do suspense, do terror e da ação. Mudam os personagens, os cenários e as circunstâncias, mas a ameaça permanece imediatamente reconhecível.

Cinquenta anos depois, o ciclo se repete

Tubarões voam em meio a um tornado e explosões em imagem promocional de Sharknado (2013)
Sharknado (2013) levou os filmes de tubarão ao absurdo ao combinar tornados, predadores voadores e destruição em massa.

Não é coincidência que a nova onda de filmes sobre tubarões tenha ganhado força em torno do cinquentenário de Tubarão. Lançado em 1975, o clássico de Steven Spielberg completou cinco décadas em 2025 e voltou ao centro das atenções, reacendendo o interesse não apenas pelo filme original, mas também pelo enorme legado que deixou no cinema.

Desde então, o gênero atravessou diferentes fases: das continuações diretas de Tubarão às produções de baixo orçamento, passando por blockbusters como Megatubarão 2 e fenômenos deliberadamente absurdos como Sharknado. A fórmula muda de escala, tom e ambição, mas conserva o mesmo princípio básico: colocar seres humanos em um ambiente no qual deixam de ocupar o topo da cadeia alimentar.

Os filmes de tubarão também parecem especialmente adaptados à lógica do entretenimento contemporâneo. Suas premissas são imediatas, o conflito pode ser estabelecido em poucos minutos e a ameaça dispensa grandes explicações. Para quem procura um suspense rápido de fim de semana, basta uma pergunta simples: quem conseguirá sair vivo da água?

Isso não impede que produções mais ambiciosas tentem elevar o patamar do gênero, explorando questões ambientais, mudanças climáticas, trauma ou relações humanas. Ao mesmo tempo, títulos assumidamente exagerados continuam encontrando espaço no streaming e no cinema. Entre o suspense sofisticado e o entretenimento descartável, o tubarão permanece onde sempre esteve: sob a superfície, esperando a próxima oportunidade de atacar.

O futuro dos filmes de tubarão

Aaron Eckhart e Molly Belle Wright em cena do elenco de Águas Mortais (2026) durante um momento de tensão a bordo de um avião após um acidente.
Aaron Eckhart e Molly Belle Wright integram o elenco de Águas Mortais (2026) em uma cena de alta tensão ambientada dentro de uma aeronave danificada.

O sucesso recente das produções protagonizadas por esses predadores indica que o gênero ainda está longe de desaparecer. Ataque Brutal, dirigido por Tommy Wirkola, terminou com uma clara abertura para uma possível continuação. Embora uma sequência ainda não tenha sido oficialmente anunciada, a ideia de explorar novas situações de desastre mostra o potencial da premissa para outras histórias.

A nova onda também inclui Águas Mortais, suspense dirigido por Renny Harlin que estreia nos cinemas brasileiros em 23 de julho de 2026, além de projetos como a continuação de Sob as Águas do Sena, um dos maiores sucessos franceses da Netflix, e outras produções independentes que continuam explorando diferentes variações da fórmula. A tendência mostra como o tubarão permanece um dos poucos monstros do cinema capazes de transitar entre grandes produções, filmes de baixo orçamento e fenômenos de streaming.


No fim, o sucesso duradouro dos filmes de tubarão diz menos sobre o animal em si do que sobre a força de uma fórmula aperfeiçoada ao longo de mais de cinco décadas: uma ameaça real, um ambiente familiar e uma dose de imprevisibilidade que poucos monstros do cinema conseguem reproduzir.

O tubarão não precisa de uma origem elaborada, poderes sobrenaturais ou uma extensa mitologia. Basta uma barbatana rompendo a superfície — ou, muitas vezes, apenas a sugestão de que algo se move sob a água — para que o espectador compreenda imediatamente o perigo.

Enquanto houver água — e público disposto a temê-la —, o cinema continuará encontrando novos motivos para colocar um tubarão nela.

Felipe Bastos

Felipe Bastos da Silva é jornalista e crítico de cinema brasileiro, fundador e editor do site Cinema & Afins. Atua na cobertura de cinema, séries, games e cultura pop desde 2007, com foco em análises aprofundadas, críticas jornalísticas e reportagens especiais.Ao longo de sua carreira, consolidou o Cinema & Afins como uma das referências brasileiras em jornalismo de entretenimento, oferecendo conteúdo confiável, detalhado e com curadoria profissional. Felipe também produz listas, coberturas de estreias e artigos analíticos sobre a indústria audiovisual.

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